Inadimplência empresarial e juros elevados pressionam o setor no país, enquanto no Rio Grande do Sul os efeitos das secas e da enchente de 2024 ampliam os desafios para empresas de todos os portes
O recente caso envolvendo a recuperação judicial da Casas Bahia, com R$ 17,3 bilhões em dívidas, expõe uma chaga que acompanha varejistas de todos os tamanhos. O setor está pressionado pela desaceleração do consumo, pelo crédito nas alturas e pelo endividamento das famílias, deixando em apreensão o segmento, que no Rio Grande do Sul ainda precisa colocar nesta conta os efeitos de consecutivas secas e da maior catástrofe climática de sua história, a enchente de maio de 2024. “Estamos colhendo a conta de uma política econômica que concedeu crédito e não teve compromisso com a realidade fiscal. Este cenário implicou altas taxas de juros para regular o mercado e outras medidas, como concessões a bets, que levaram a essa situação nefasta. Essa conta chega agora na forma de fechamentos de empresas e de endividamento”, comenta o presidente da Federação Varejista do RS, Ivonei Pioner.
A Casas Bahia encerrou as atividades de 298 lojas e demitiu quase 2 mil funcionários na última semana. A Magazine Luiza registrou um prejuízo de R$ 50,4 mi no segundo trimestre, enquanto a Renner reduziu a expectativa de crescimento da receita líquida para 2026 e a C&A, embora tenha registrado lucro 4,3% superior no segundo trimestre em relação à igual período de 2025, registrou Ebitda abaixo das expectativas.
São situações que acompanham um cenário preocupante. Um levantamento da Federação Varejista do RS, a partir de fontes como Mapa de Empresas/MDICMEMPE, Serasa Experian, IBGE, Sebrae, Jucis-RS, Sefaz-RS e FecomercioSP, mostra que a inadimplência empresarial e as recuperações judiciais estão em alta no país. Em 2025, as recuperações judiciais atingiram cerca de 2,5 mil empresas, o maior nível da série histórica do Indicador Serasa Experian. Já os negócios inadimplentes alcançaram 8,8 milhões de CNPJs em fevereiro de 2026, próximo do recorde histórico de 8,9 milhões registrado em dezembro de 2025. No terceiro semestre daquele ano, de acordo com o Monitor RGF (metodologia que exclui MEs, ONGs e filiais), havia 5.285 empresas em situação de recuperação judicial no Brasil.
No Rio Grande do Sul, conforme a Jucis-RS, em 2025 os fechamentos de empresas saltaram 24%, estabelecendo o recorde de 182.224. Já as falências saíram 60 em 2024 e chegaram a 99 em 2025, uma alta de 65%. O caso de recuperações judiciais também segue em alta: foram de 163 em 2024 (+48% sobre os 110 de 2023) para 200 em 2025, recorde absoluto do Estado (+23%). “Aqui, as consequências erráticas da política econômica do país são agravadas pelos sucessivos problemas ambientais, pelo menos quatro secas e a grande enchente de 2024, o que torna a debilidade financeira maior tanto das pessoas quanto das empresas”, pondera Pioner.
Um ano após as enchentes de maio de 2024, os efeitos sobre os pequenos negócios gaúchos ainda eram expressivos. Pesquisa do Sebrae RS, realizada em abril de 2025 com 1.058 empreendedores atingidos, mostrou que apenas 46% das empresas haviam retomado as operações normalmente, enquanto 45% ainda estavam em processo de reestruturação e 7% sequer tinham voltado a funcionar. Entre os MEIs, 13% não haviam retomado as atividades ou já tinham encerrado os negócios. A tragédia também provocou forte impacto financeiro: 87% dos empreendedores relataram queda no faturamento, sendo que, em 30% dos casos, a receita permanecia muito abaixo do necessário e 12% avaliavam fechar a empresa. A falta de recursos próprios foi apontada por 84% como principal obstáculo à recuperação, seguida pela dificuldade de acesso ao crédito (50%), enquanto 35% afirmaram não ter recebido nenhum tipo de auxílio.
De modo geral, no entanto, o dirigente credita as dificuldades do varejo nacional como um reflexo direto do ambiente econômico. “Alguns podem delegar ao digital essa condição, mas não é isso. O que nós temos é uma realidade econômica que vem enfraquecendo, penalizando quem empreende”, opina.



