Inadimplência e bets estão entre os fatores que frearam recuperação do comércio conforme a Federação Varejista do RS, que prevê vendas apenas acompanhando a inflação para a segunda metade do ano
Apesar do mercado de trabalho aquecido, o primeiro semestre de 2026 terminou sem uma recuperação consistente para o varejo gaúcho. Fatores como o elevado nível de inadimplência das famílias, o comprometimento da renda com despesas financeiras e o redirecionamento de parte do consumo para as apostas esportivas impediram que o aumento do emprego se convertesse em maior movimento nas lojas, na avaliação da Federação Varejista do Rio Grande do Sul.
Segundo a entidade, o cenário observado nos primeiros seis meses do ano reforça que a geração de empregos, por si só, não é suficiente para impulsionar o consumo quando a renda das famílias permanece comprometida – no trimestre de fevereiro a abril de 2026, o Brasil contava com 102,3 milhões de trabalhadores com 14 anos ou mais, segundo o IBGE. A prioridade de muitos consumidores tem sido o pagamento de dívidas e das despesas essenciais, reduzindo o espaço para compras no comércio. “O emprego recorde não se traduz automaticamente em uma economia mais aquecida. A inadimplência compromete grande parte da renda das famílias, enquanto novos hábitos de consumo, como os gastos com apostas esportivas, retiram recursos da economia produtiva. Para que o varejo volte a crescer, será necessária uma combinação de educação financeira, redução da inadimplência e geração de empregos com maior capacidade de remuneração”, avalia o presidente da Federação Varejista do RS, Ivonei Pioner.
O primeiro semestre do ano fechou com a inadimplência em alta no Estado. No acumulado desde janeiro, o crescimento chega a 1,42% no número de consumidores endividados no Rio Grande do Sul. O valor médio das dívidas também subiu: de R$ 5.264,13 em janeiro para R$ 5.596,36 em junho, alta de 6,3% em seis meses, a um ritmo de cerca de R$ 66 a mais por mês. Além das dificuldades conjunturais, a Federação segue concentrando esforços na preparação das empresas para a implantação da Reforma Tributária – considerada uma das principais pautas da entidade em 2026. A maior preocupação está na adaptação dos pequenos e médios negócios às novas regras fiscais, especialmente às mudanças no fluxo de caixa provocadas pelo chamado ‘split payment’ – mecanismo que fará com que parte dos tributos seja recolhida automaticamente no momento da operação comercial, alterando significativamente a gestão financeira das empresas. Para minimizar os impactos da transição, a Federação tem promovido palestras, encontros técnicos e ações de orientação voltadas aos empresários, buscando prepará-los para as mudanças que entrarão em vigor gradualmente nos próximos anos. “Muitos pequenos e médios empresários ainda não dimensionaram o impacto que terão sobre o fluxo de caixa e a administração dos negócios. Nosso papel é antecipar esse debate, capacitar os empreendedores e defender uma implementação que preserve a competitividade do varejo”, afirma Pioner.
Outra bandeira defendida pela entidade é a atualização dos limites do Simples Nacional e do MEI, congelados desde 2018. Na avaliação da Federação, essa defasagem amplia os custos para micro e pequenas empresas. Isso leva a migração para regimes tributários mais onerosos, comprometendo o futuro das empresas e contribuindo para o aumento da informalidade. “A informalidade é a pior doença que podemos gerar para a economia, porque não gera impostos, não distribui riqueza e diminui a atividade econômica de quem empreende”, diz. A entidade sustenta que a atualização dos limites estimularia a economia. “Quando a carga tributária é compatível com a realidade das empresas, há mais formalização, geração de riqueza e arrecadação. A atualização é uma medida importante para reduzir a mortalidade das micro e pequenas empresas e evitar o avanço da informalidade”, destaca o dirigente.
Perspectivas para o segundo semestre
Para os próximos meses, a Federação Varejista trabalha com um cenário de estabilidade. Embora o segundo semestre costume apresentar desempenho superior ao primeiro, impulsionado por datas comemorativas e pelo aumento sazonal das vendas, a entidade não projeta crescimento real em 2026. A expectativa é de que o setor consiga, no máximo, acompanhar a inflação, encerrando o ano próximo da estabilidade. Entre os fatores monitorados estão a evolução da inadimplência, os efeitos da política fiscal, o comportamento do consumo das famílias e medidas que possam reduzir a saída de recursos da economia para as bets.
Ao mesmo tempo, a Federação ressalta que a capacidade de adaptação dos empresários continuará sendo decisiva para enfrentar um ambiente econômico desafiador. “Historicamente, o segundo semestre é mais favorável ao comércio, mas neste ano trabalhamos com uma expectativa bastante cautelosa. A tendência é de estabilidade, sem crescimento real. O empresário precisará continuar investindo em inovação, eficiência e gestão para enfrentar um ambiente que permanece desafiador”, sugere.



